O novo profissional de comunicação

2009 Junho 29

“O jornalismo estará irreconhecível. Estamos passando por mudanças dramáticas causadas pela internet e por redes como o Twitter e o Facebook. Nas comunidades de antigamente só havia o padre e o médico que sabiam ler e, portanto, podiam compartilhar conhecimento. Depois, as pessoas tiveram acesso a livros, jornais, televisão e o conhecimento passou a ser mais bem distribuído. Mas, mesmo assim, os jornalistas, escritores, produtores dos programas de TV eram os mais poderosos. Hoje cada um pode ter seu próprio site, sua própria televisão. A hierarquia morreu. Acabou a ideia de que o jornalismo é uma centena de pessoas inteligentes reunidas num prédio informando milhões de idiotas.”

O filósofo Jonathan Mann responde a pergunta “Que tipo de jornalistas serão as crianças de hoje?”. Segundo ele, os jornais estão em perigo. “Acho que a crise é dos jornais, não das notícias. O New York Times, o Times (de Londres), o Libération (de Paris), todos ainda podem existir como sites. O papel não será mais necessário. A TV também não será. Ela está na internet, no celular. A questão está em como as notícias serão distribuídas, é uma crise de distribuição”, opina.

Com o surgimento da mídia social (web 2.0), a vocação colaborativa da web ficou ainda mais clara: não estamos apenas conectando conhecimento, mas pessoas. E nessa nova comunidade surgem adversidades, mas também inovações.

O poder da rede também torna possível a interação com outros profissionais da informação, permitindo novas formas de relatar notícias. Nos EUA, por exemplo, quatro jornalistas (Elaine Helm, Paul Balcerak, Brianne Pruitt e Angela Dice) fizeram uma cobertura, de forma colaborativa, das chuvas em Washington. Eles não trabalhavam no mesmo local, nem para a mesma empresa. Na verdade, muitos deles nem se conheciam pessoalmente. Eles utilizaram o site colaborativo Publish2 (http://www.publish2.com/). A notícia se propagou no Twitter, já que eles adotaram uma hashtag única.

Esse é apenas um exemplo. Na internet, o produtor de conteúdo pode ser um comunicador com inúmeras facetas. Steve Outing acredita que o jornalista irá trabalhar numa determinada comunidade. Ou, como prega Seth Godin, Tribos.

As empresas jornalísticas irão oferecer aos seus empregados (jornalistas ou blogueiros) ferramentas web 2.0 para que ele atue em nichos específicos, criando comunidades sobre temas com os quais esse público se identifique. Ou seja, o jornalista vai se dedicar a um tema pelo qual seja genuinamente apaixonado.

O repórter pode agrupar essas pessoas e criar conteúdo sobre o assunto em que é especialista. Atuando nesse nicho, o jornalista poderá contar com essa comunidade para lhe aconselhar. Sugestão de idéias de pautas, fontes, indicações de conteúdo de outras publicações e até mesmo receber ajuda voluntária desse público (especialistas escrevendo artigos, pessoas enviando vídeos etc.).

Steve Outing acredita que isso se assemelha à proposta do beatblogging, conceito que ajuda a realizar mais, economizando dinheiro. Une peritos em assuntos específicos e jornalistas para lançar luz sobre temas segmentados, criando uma conversa online que dificilmente seria possível de ser realizada por apenas uma pessoa, melhorando e ampliando a cobertura de assuntos.

Com isso, se produz conteúdo especial para uma audiência realmente interessada, muitas vezes não atendida em outros meios de comunicação. O que abriria espaço para uma propaganda segmentada.

Para Outing, com blogs no centro do trabalho jornalístico, o jornalista desenvolverá múltiplas atividades. O jornalista será multitarefa, podendo atuar numa variedade de formatos, desde textos simples a vídeos, podcasts ou experimentações multimídia. A notícia recebe atualizações à medida que os eventos progridem. Não apenas texto, mas vídeo ou áudio. E, quando necessário, informações urgentes podem ser enviadas via celular, lista de e-mail, Twitter, redes sociais etc.

Entretanto, Outing acredita que levará tempo para que a maioria dos jornalistas se adapte a este novo fluxo de trabalho.

Cada vez mais, a construção das notícias pode ser enriquecida com a participação colaborativa das pessoas. O jornalista passa a ser o organizador dessas informações, dessa produção coletiva. Que pode estar espalhada em diversas ferramentas da web 2.0: Flickr, Youtube, Twitter etc. Ao mesmo tempo que filtra o que há de mais relevante, contextualiza o assunto e checa a veracidade das informações e depoimentos.

Atualmente, uma história pode ganhar ramificações, atualizações constantes, enfoques inusitados de fontes que estão vivenciando grandes acontecimentos, algo que enriquece o trabalho jornalístico e transforma a matéria em algo não linear.

Jornalismo beta

No texto Produto x processo jornalismo: O mito da perfeição versus cultura beta, Jeff Jarvis repisa um assunto já desgastado: nova mídia x modelos clássicos da informação. Um dos pontos principais é a divulgação de boatos, notícias não confirmadas. Segundo Jarvis, na internet, freqüentemente o material é publicado primeiro e editado posteriormente.

Para ele, essa criação não é perfeita, mas não significa que seja pautada pela especulação, que não obedeça a normas. É apenas um processo diferente. Há blogueiros, por exemplo, que pedem a ajuda de leitores para escrever seus textos.

Trata-se de um processo de colaboração, transparência, no qual os leitores participam. Todavia, é necessário esclarecer isso, trazer advertências e correções. Uma boa dica é deixar claro o que se sabe no momento e o que pode ser confirmado depois.

O blog TMZ, especializado no mundo das celebridades, foi o primeiro a citar a morte de Michael Jackson. Todavia, já trazia, ao final do texto, a informação de que se tratava de uma notícia ainda em construção.

Imagem via Flickr de inju

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