Evento debate como os novos meios de comunicação mudaram as mobilizações sociais

Começou ontem e prossegue até hoje, em Nova York, a conferência da Aliança dos Movimentos da Juventude (Alliance of Youth Movements).  Em destaque, diversos temas correlatos ao assunto: como construir movimentos sociais transnacionais utilizando novas tecnologias, como usar novas tecnologias móveis etc.

A conferência, que está sendo transmitida ao vivo no Howcast,  reúne profissionais de destaque da TV, política, organização comunitária e do meio acadêmico.

O evento é ideal para quem faz parte ou estuda os movimentos sociais, que passa por grande transformação devido aos novos meios comunicação.

Para quem perdeu grande parte da programação, nesse link há alguns vídeos, tais como o poder da organização sem organizações;  como criar um movimento popular utilizando sites de relacionamento; como ser um dissidente eficaz e até como deixar Al Gore orgulhoso.

Daqui a cinco anos, os meios de comunicação não utilizarão mais suporte físico


O estrategista de marketing Steve Rubel faz uma previsão ousada na sua coluna publicada na Advertising Age. Aposta que até janeiro de 2014 quase todos os tipos de suportes materiais vão estar em acentuado declínio ou completamente extintos nos EUA: jornais, revistas, livros, DVDs, softwares e jogos de videogame embalados.

Para defender sua tese, enumera algumas notícias recentes:

* Devido ao sucesso do leitor de livros digitais Amazon Kindle, a Random House, maior editora norte-americana, está disponibilizando 15.000 livros em formato digital;
* A Microsoft tornou possível que seu videogame, o XBox 360, receba jogos via download, não necessitando de um DVD para rodar. Além disso, lançou uma loja on-line para vender software que podem ser baixados;
* A Apple está vendendo um número recorde de jogos via download para iPhoneiPod Touch. Isso atrai os editores de games, porque a falta de meios físicos aumenta os lucros;
* A Netflix, empresa de aluguel de DVD on-line, está disponibilizando parte do seu catálogo na internet.

Segundo Rubel, estamos nos transformando numa sociedade que consome mídia totalmente em formato digital. Existem três fatores para isso:

* Crescente consciência verde – as pessoas querem viver respeitando mais o meio-ambiente;
* Venda de smartphones: Telefones com diversos recursos -entre eles, multimídia- cada mais rápidos, baratos e fáceis de se utilizar.
* Dinâmica demográfica – em 2010,  os millennials — também chamados de geração Y; jovens nascidos entre 1977-1995 que utilizam bastante a tecnologia, gadgets etc. –  serão a maioria.

No mundo, ele acredita que a tendência demorará mais. Entretanto, nos EUA, o ritmo cresceu muito nos últimos meses. Ele termina com uma pergunta: O que isso significa para a publicidade e os meios de comunicação?

Uma nova forma de fazer política (on-line)

A atual eleição norte-americana à presidência marcou uma nova forma de se usar a tecnologia. Barack Obama foi o destaque, potencializando o uso da internet ao se manter presente em inúmeras ferramentas da web 2.0 (Youtube, Twitter etc.). O perfil do candidato no Facebook, por exemplo, se tornou um dos mais populares da rede social.

Além disso, utilizou a rede para conseguir recursos para sua campanha (US$ 640 milhões, grande parte proveniente de pequenas doações), manter seus apoiadores informados (o candidato revelou o nome do seu vice via SMS) e construir uma sólida base de dados, transformando muitos deles em voluntários.

Como gozou de grande apoio da população -principalmente dos mais jovens- e de artistas, a campanha de Obama foi pródiga em disseminar virais. Dois momentos de destaque: o vídeo criado por Will.i.am (Black Eyed Peas), que conta com várias celebridades e que foi inspirado num discurso feito por Barack Obama (veja abaixo), foi visto milhões de vezes. Outro momento de grande repercussão foi o comício feito pelo candidato democrata para mais de 200 mil pessoas em Berlin. Muitos jovens tiraram fotos e filmaram o momento. Imagens como a que abre esse texto foram bastante divulgadas na rede.

Não se trata de algo propriamente novo. Há quatro anos, Howard Dean, então pré-candidato à presidência e atual presidente do partido democrata, conseguiu visibilidade durante as primárias usando uma tática similar. A mesma equipe dessa campanha foi a responsável pela criação do projeto Obama.com.

Caminho distinto

Já o oponente de Obama, o republicano John McCain, não conseguiu bons resultados on-line. Mas até ele, que dizia ter dificuldade para enviar e-mails, inovou. Sua filha, Meghan, criou um blog para revelar os bastidores da campanha, possibilitando uma perspectiva diferente para se acompanhar uma campanha eleitoral.

Novas táticas

A grande mídia aproveitou a ocasião para testar inúmeras ferramentas on-line, muitas delas relacionadas a vídeos e newsgames. Também aproveitaram para disponibilizar trechos de debates e reportagens em seu sites ou em projetos on-line. Como a página de hospedagem de vídeos Hulu. Pertencente aos grupos NBC Universal e News Corp, trazia material jornalístico de praxe e vídeos de esquetes do programa humorístico Saturday Night Live (SNL). John McCain e sua vice, Sarah Palin, passaram por lá, bem como Hillary Clinton, então pré-candidata pelo partido democrata.

Em relação aos sites, o coletivo de blogs The Huffington Post, de tendência mais liberal, viu sua audiência e seu prestígio aumentar, muitas vezes pautando os demais meios de comunicação. Na frente conservadora, destacou-se o Drudge Report.

Obviamente, também houve espaço para denúncias via blogs, divulgação de vídeos com momentos constrangedores dos candidatos etc. Até a conta de e-mail de Sarah Palin no Yahoo! foi invadida.

Qual o resultado?

Maior utilização da internet para obter conhecimento, troca de idéias e criação de conteúdo pelos usuários. A importância da rede nessa campanha foi expressiva, mas não pode ser encarada como único fator importante. Também influenciaram a grande rejeição ao atual presidente, George Bush, uma guerra em curso questionada (a Guerra do Iraque) e ainda uma crise econômica. Esses três pontos foram importantes para a rejeição ao candidato da situação, John McCain.

Ademais, há também as características peculiares da realidade norte-americana, como um processo eleitoral em que o voto popular não garante a vitória nas urnas (o que conta são os pontos que os estados representam) e a tradição do país em que quase sempre os filhos herdam a orientação política dos pais.

De toda forma, o que pareceu ser novo nesse ano, deve virar uma tendência nas próximas eleições (muito provavelmente em outros países). Acima de tudo, separar os elementos da comunicação em receptores e emissores se torna mais difícil. Esses conceitos já se misturaram.

Enquanto isso, no Brasil, o TSE limitou o uso da internet nas últimas eleições municipais.

Geração MTV 2.0

Antes, usava-se o termo “geração MTV” como algo pejorativo. Representava uma juventude sem ideais, pouco engajada. Hoje, a emissora mantém um site de relacionamento especialmente dedicado a… ativismo. Eis o Think MTV. Vídeo explicativo acima.

Tim Lopes

Em homenagem ao jornalista Tim Lopes, que foi cruelmente assassinado, o Movimento Rio de Combate ao Crime, que gerencia o Disque-Denúncia, lançou o Prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo. Os vencedores vão ganhar viagens e equipamentos, como microcâmeras, câmera digital e computadores.

A seguir, a opinião de alguns colunistas sobre o assunto.

“Sua morte põe todos os jornalistas de luto, mesmo aqueles que não o conheciam pessoalmente, porque caiu no cumprimento do dever. Foi assassinado por traficantes contrariados. Tinha 51 anos. É um mártir.” (Eugênio Bucci – JB)
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“O caso Tim Lopes lembra, para quem tivesse alguma dúvida, o avanço recente do telejornalismo brasileiro, que, investigando o que corrompe a nação, troca a chapa branca por câmeras reveladoras; substitui o discurso sensacionalista pelo exercício da investigação responsável, correndo os riscos impostos por tal opção. Quem faz isso merece ser saudado, não demonizado.”(Nelson Hoineff – JB)
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“Por documentos suscitados pela morte de Tim Lopes, quem não sabe fica sabendo: quase todos os dias, aqui e no mundo, morrem jornalistas no exercício de sua profissão. Já no legislativo e no executivo isso pouco acontece – a morte do prefeito de Campinas definitivamente não se inclui no caso.” (Millor Fernandes – JB)
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“A morte de Tim Lopes provocou uma comoção nacional, por lembrar, mais uma vez, como o crime organizado ganhou status de poder paralelo. O assassinato do jornalista mostrou cenas macabras do ritual desse poder: ele foi capturado, preso, julgado, condenado e executado ali mesmo.”(Gilberto Dimenstein – Folha Online)
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“Mesmo que as empresas jornalísticas, por sua própria natureza comercial, estejam dominadas pela busca de intensas emoções, o tipo de jornalismo praticado por profissionais como Tim Lopes, embora possa produzir picos de audiência, é incomparavelmente mais necessário, mais salutar, mais generoso, mais digno e mais cívico do que o sensacionalismo de auditório promovido pelos Ratinhos da vida.” (Alberto Dines – JB)
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“A dor pela perda de Tim não será só nossa. Como um símbolo, ele pode ser o começo de uma nova caminhada no aperfeiçoamento da democracia. Que ela exista também para os pobres usados como escudo pelos novos ditadores. Tim veio da pobreza para a classe média vencendo barreiras intransponíveis para tantos outros negros e pobres. Escolheu ser um mensageiro que buscava nas áreas de sombra a informação que não temos. E a maior informação que ele trouxe com a sua morte é que há um novo terror a ser combatido. […] Tim há de ser o novo elo para uma nova e inadiável luta de libertação.”(Miriam Leitão – O Globo)
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“O Suplício e a morte do jornalista Tim Lopes é um tiro de canhão em todos nós. Nos que produzem informação e nos cidadãos que ficam privados dela. Pois agora o tráfico mostra que ousa também calar quem fala dele, que chega ao limite intolerável, à fronteira da própria democracia.” (Teresa Cruviel – O Globo)